
Febraban Tech 2026: Novo cartão Visa, novidades em cartões e pagamentos
Entre 24 e 26 de agosto de 2026, aconteceu em São Paulo a Febraban Tech, o maior evento de tecnologia do setor financeiro do Brasil. Ao contrário de edições passadas — quando o destaque costumava ser o lançamento de um cartão específico —, esta edição foi dominada por um tema mais estrutural: como a inteligência artificial, a tokenização e os “pagamentos invisíveis” vão mudar a forma como o cartão de crédito funciona por trás dos panos. A cobertura geral ficou concentrada em portais de tecnologia e comunicados de imprensa das próprias empresas, e pouca coisa chegou ao público final — então vale reunir aqui o que realmente importa para quem usa cartão no dia a dia.
Visa identifica um “buraco” entre o Infinite e o Infinite Private — e prepara novas categorias
O anúncio mais direto para quem coleciona categoria de cartão veio da Visa. Rodrigo Cury, presidente da Visa no Brasil, afirmou na Febraban Tech que existe hoje “uma espécie de espaço intermediário” entre os cartões destinados à alta renda (o Visa Infinite) e os produtos voltados à chamada altíssima renda (o Visa Infinite Private, antigo Infinite Privilege).
O problema, na prática, é de coerência: um cliente com R$ 5 mil investidos na XP recebe basicamente os mesmos benefícios com a marca Visa — acesso a sala VIP em Guarulhos, seguros, concierge — que alguém com R$ 5 milhões investidos no Bradesco e portador de um cartão Aeternum. Essa equivalência de benefícios entre perfis de patrimônio tão diferentes esvazia o sinal de exclusividade que uma categoria de cartão deveria carregar.
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Hoje, o Infinite Private é oferecido no Brasil por Itaú (pioneiro no produto), XP, Porto Bank e Unicred. Cury sinalizou que anúncios de novos produtos “podem vir num prazo relativamente curto”, mas a Visa ainda não revelou oficialmente nome, requisitos ou benefícios de uma categoria intermediária — por ora, o discurso é de que os bancos já começaram a desenhar produtos próprios para preencher essa lacuna entre o Infinite e o Private, numa espécie de resposta ao Mastercard World Legend Elite.
Vale acompanhar de perto: se a Visa (ou os bancos emissores) confirmar uma nova categoria intermediária nos próximos meses, é bem provável que isso mexa com o ranking de cartões premium do mercado inteiro.
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Mastercard Wholesale Program: o novo cartão virtual para empresas
A novidade mais concreta em “cartão” propriamente dito veio da Mastercard, com o lançamento do Mastercard Wholesale Program (MWP) — um sistema de pagamento B2B baseado em cartões virtuais.
Funciona assim: cada pagamento gera um número de cartão único e temporário, configurado com parâmetros específicos — fornecedor autorizado, valor da transação e prazo de uso. O cartão aceita múltiplas moedas para operações internacionais e já nasce com reconciliação automática embutida.
Segundo Walter Pimenta, vice-presidente executivo de Pagamentos B2B da Mastercard, “todos os termos comerciais da transação podem ser embarcados dentro desse cartão virtual”. Ou seja: em vez de um cartão genérico, cada compra empresarial ganha um cartão “de uso único” com as regras do negócio já dentro dele.
O motivo da aposta: segundo Marcelo Tangioni, presidente da Mastercard Brasil, o consumo privado eletrônico já passa de 90% no país — “quando o consumo privado eletrônico já ultrapassa 90%, o potencial de crescimento é menor”. O crescimento agora mira o público empresarial, um mercado ainda dominado por boletos: R$ 2,5 trilhões por ano ainda circulam dessa forma, contra R$ 409,5 bilhões movimentados em cartões corporativos em 2025 (apenas 9,1% do mercado total de cartões). A expectativa é de crescimento de 23% ao ano nos pagamentos comerciais pelos próximos seis anos. O setor de turismo foi o primeiro a receber o MWP, por lidar com reconciliações financeiras mais complexas — agribusiness, transporte e eventos vêm a seguir.
Comércio agêntico: cartões pensados para IA comprar por você
Outro anúncio da Mastercard foi o Agent Pay, uma solução que permite transações autônomas feitas por agentes de inteligência artificial — ou seja, cartões e credenciais de pagamento desenhados para que um assistente de IA pesquise, decida e compre por conta própria, sem um humano confirmando cada etapa.
Os números que a Mastercard apresentou no evento (via seu levantamento SpendingPulse) ajudam a entender por que essa aposta faz sentido agora: 77% dos usuários de IA generativa já fazem compras com apoio de alguma ferramenta de IA, e 69% dos millennials dizem estar dispostos a deixar um algoritmo tomar decisões de compra por eles. Isso empurra o setor de pagamentos para um cenário em que o cartão de crédito precisa “conversar” com agentes de IA da mesma forma que hoje conversa com um app de banco.
O “fim” do cartão físico como o conhecemos
Um dos temas centrais da programação oficial da Febraban Tech 2026 levava esse título quase literal: “com novas tecnologias, o cartão de plástico será desconstruído”. A ideia discutida pelos executivos do setor é que o cartão físico deixa de ser a unidade central da experiência de pagamento — ele vira só mais um “invólucro” para uma credencial que, na prática, já vive tokenizada no celular, no navegador ou dentro de um agente de IA.
Isso conecta com o segundo grande tema do evento: os pagamentos invisíveis. As tecnologias por trás dessa ideia, segundo cobertura da Dock (parceira do evento), incluem:
- Biometria e autenticação inteligente — reconhecimento facial e digital combinados com análise de risco em tempo real, para validar identidade sem fricção;
- Tokenização — substitui os dados sensíveis do cartão por identificadores criptografados, fundamental para cobranças recorrentes e compras “de um clique” sem expor o número real do cartão;
- Embedded payments — pagamento embutido dentro do próprio app/serviço, sem redirecionar o usuário para outra tela. Esse mercado, avaliado em US$ 39,1 bilhões em 2025, tem projeção de chegar a US$ 430,3 bilhões até 2033;
- Pagamentos em tempo real — o Pix foi citado como referência mundial nesse tema, viabilizando cobranças recorrentes e pagamentos iniciados via Open Finance.
O motivo prático por trás de tudo isso: segundo dados do Baymard Institute citados no evento, 70% dos carrinhos de compra online são abandonados, e 17% desses abandonos acontecem por causa de um checkout longo demais — cada segundo a menos entre “decidir comprar” e “pagar” vira receita a mais para quem vende.
O que os bancos mostraram na prática
Fora dos anúncios das bandeiras, os grandes bancos usaram o evento para mostrar como a IA já está mudando a experiência de quem usa cartão e conta digital:
- O Itaú ampliou suas experiências de IA conversacional, incluindo Pix via WhatsApp, e planeja escalar a infraestrutura de IA de 300 mil para 3 milhões de clientes até o fim do ano;
- O Bradesco revelou que sua assistente BIA já realizou cerca de 74 milhões de transações no primeiro semestre de 2026, somando app e WhatsApp;
- O Nubank discutiu o uso de modelos de IA “dentro de padrões de governança” para aprimorar a avaliação de crédito dos clientes — o que tende a refletir em aprovações de cartão e limites mais precisos no médio prazo.
Vale lembrar que o Nubank formalizou associação à Febraban em março de 2026 — nós já cobrimos o que isso significa na prática, e essa aproximação ajuda a explicar por que o banco teve mais espaço nas discussões deste ano.
O que isso muda pra quem usa cartão
Nenhum banco anunciou um cartão novo “de prateleira” na Febraban Tech 2026 — o driver deste ano foi tecnologia por trás do cartão, não o produto em si. Na prática, o que vem por aí para o usuário final é:
- menos fricção para comprar (biometria + tokenização substituindo a digitação do número do cartão);
- mais compras “silenciosas”, feitas por assistentes de IA a partir de instruções gerais, sem confirmação manual de cada uma;
- cartões corporativos/virtuais de uso único ganhando força nas empresas, o que deve pressionar bancos brasileiros a lançar produtos equivalentes para PJ e freelancers nos próximos meses;
- o cartão físico de plástico virando cada vez mais um “backup”, enquanto a credencial real passa a viver na nuvem, no celular ou dentro de um agente de IA.
A conclusão do Viagem Black
A Febraban Tech 2026 não trouxe o lançamento de um cartão pronto, mas trouxe o sinal mais concreto do ano para quem acompanha categorias premium: a própria Visa reconhecendo publicamente que existe uma lacuna entre o Infinite e o Infinite Private, e que os bancos já estão se movimentando para preenchê-la. Some isso a pagamentos cada vez mais invisíveis, cartões corporativos de uso único ganhando espaço e uma primeira geração de “cartões pensados para IA comprar por você” — e dá pra dizer que 2026 está desenhando o próximo degrau de categorias de cartão antes mesmo de ele ganhar nome. Vale ficar de olho em como Visa, Itaú, Bradesco, Nubank e as bandeiras vão transformar isso em produto nos próximos meses — é aí que a notícia “de evento” vira notícia “de cartão na sua carteira”.
Tags: Febraban Tech 2026, Mastercard, tokenização, IA, pagamentos, cartão virtual, comércio agêntico
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