
Revolut vai mudar o mercado de cartões no Brasil: milhas podem ser apenas o começo
Revolut pode mudar o mercado de cartões no Brasil: milhas podem ser apenas o começo
A Revolut entrou no mercado brasileiro inicialmente associada à conta global e ao câmbio, mas o desempenho do cartão Ultra revelou algo que pode ser ainda mais importante para o futuro da fintech: o brasileiro está disposto a escolher um banco também pela qualidade do programa de pontos e pelos benefícios de viagem.
O próprio CEO da Revolut no Brasil, Glauber Mota, admitiu que a empresa esperava que o câmbio fosse o principal atrativo do produto. O resultado, porém, surpreendeu. Segundo ele, a fintech alcançou em apenas duas semanas o volume de cartões que havia projetado para três meses. O programa de pontos, que inicialmente estava fora do centro da estratégia, acabou ganhando protagonismo entre os consumidores interessados em milhas.
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E é justamente aí que começa a discussão mais interessante: se a Revolut percebeu que encontrou um mercado extremamente maduro para milhas, o que poderá fazer a partir de agora?
O Ultra pode ser apenas o primeiro movimento
Hoje, o Ultra já ocupa o topo da estrutura de planos da Revolut no Brasil. O produto oferece até 3 RevPoints por dólar no crédito, acesso ilimitado a salas VIP e uma série de benefícios associados ao segmento premium. O plano custa atualmente R$ 249,99 por mês ou R$ 2.499,90 por ano.
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Mas o ponto mais relevante não é necessariamente a pontuação atual.
É a possibilidade de a Revolut transformar o cartão em uma plataforma de relacionamento com o cliente.
A companhia já trabalha com diferentes níveis de planos — Standard, Plus, Premium, Metal e Ultra — e diferencia cada categoria pela quantidade de RevPoints e pelos benefícios oferecidos. No crédito, por exemplo, a pontuação vai de 0,2 RevPoint por dólar no Plus a 3 RevPoints no Ultra.
Isso cria espaço para uma evolução natural: mais produtos, mais parceiros e uma disputa cada vez maior pela carteira do cliente de alta renda e do viajante frequente.
O verdadeiro diferencial pode estar na conversão
No mercado brasileiro, falar apenas em “3 pontos por dólar” não conta toda a história.
O que importa é o que o consumidor consegue fazer com esses pontos.
A própria Revolut posiciona os RevPoints como uma moeda de fidelidade que pode ser convertida em milhas aéreas e outros benefícios. Atualmente, a empresa divulga parceiros como Iberia, TAP Air Portugal e Qatar Airways, além de outras opções internacionais.
Esse modelo pode ganhar ainda mais força caso a fintech continue ampliando o número de programas parceiros.
E aqui existe uma oportunidade estratégica importante.
Se o cliente brasileiro perceber que os RevPoints conseguem chegar a diferentes programas de fidelidade com boa conversão, a Revolut deixa de ser apenas uma conta global com cartão premium e passa a competir diretamente pela posição que hoje é ocupada por bancos tradicionais e seus ecossistemas de pontos.
O próximo passo pode ser uma guerra por parceiros
É possível imaginar um cenário em que a disputa entre os grandes cartões brasileiros deixe de acontecer apenas pela quantidade de pontos.
A competição pode migrar para:
- quantidade de parceiros aéreos;
- proporções de transferência;
- velocidade de transferência;
- promoções de bônus;
- validade dos pontos;
- acesso a salas VIP;
- benefícios de viagem;
- seguros;
- experiências exclusivas;
- facilidade para acumular e resgatar.
A Revolut já demonstrou que pretende trabalhar nessa direção.
Em março, ao anunciar o Ultra no Brasil, a empresa destacou justamente a combinação entre crédito, RevPoints, investimentos internacionais, conta remunerada e benefícios premium.
E se a Revolut começar a disputar o cliente dos cartões mais exclusivos?
Esse talvez seja o ponto mais interessante para os próximos anos.
Tradicionalmente, os cartões mais sofisticados do Brasil foram associados a bancos de grande porte, relacionamento, investimentos, renda elevada e, em alguns casos, convite.
A Revolut tenta inverter essa lógica.
A empresa afirma que o acesso às categorias de cartões não depende de convite ou de um volume mínimo de investimentos; o crédito, por sua vez, continua sujeito à análise. A proposta é permitir que o cliente escolha a experiência premium pelo plano contratado, enquanto o limite de crédito é determinado individualmente.
Se esse modelo ganhar escala, poderá pressionar os bancos tradicionais.
Isso porque o consumidor pode começar a comparar não apenas “qual cartão dá mais pontos?”, mas quanto custa ter acesso ao pacote completo de benefícios.
O mercado pode caminhar para cartões cada vez mais parecidos com assinaturas
Esse movimento também aponta para uma transformação maior.
O Ultra custa quase R$ 2.500 por ano, mas não funciona simplesmente como um cartão com anuidade tradicional. O cliente paga por uma assinatura que reúne cartão, pontos, salas VIP, serviços, seguros e outros benefícios.
Essa lógica pode se tornar cada vez mais comum.
No futuro, poderemos ter cartões premium que funcionem mais como clubes de benefícios financeiros do que como simples instrumentos de pagamento.
Nesse cenário, a pergunta deixará de ser:
“Qual cartão pontua mais?”
E passará a ser:
“Qual ecossistema me entrega mais valor pelo que eu pago?”
Milhas podem transformar a Revolut em um concorrente ainda maior
A descoberta feita pela Revolut é particularmente importante porque o Brasil possui um público extremamente familiarizado com programas de fidelidade.
O consumidor brasileiro já está acostumado a comparar Livelo, Esfera, Átomos, programas de companhias aéreas, cartões premium e promoções de transferência.
Isso significa que a Revolut não precisa ensinar o consumidor a gostar de pontos.
Ela precisa apenas convencê-lo de que os RevPoints são melhores ou mais convenientes do que as alternativas existentes.
Se conseguir fazer isso em escala, o impacto poderá ser muito maior do que o inicialmente imaginado.
E as salas VIP?
Outro campo de batalha será o acesso aos aeroportos.
O Ultra já oferece acesso ilimitado às salas VIP por meio do aplicativo da Revolut. A própria empresa coloca esse benefício entre os principais diferenciais do plano.
No Brasil, onde salas VIP se transformaram em um dos principais argumentos de venda de cartões premium, esse benefício pode ter enorme peso.
Mas também aumenta a pressão sobre a Revolut: quanto maior a base de usuários, maior tende a ser a necessidade de manter uma rede de parceiros capaz de entregar uma experiência consistente.
No futuro, portanto, não seria surpreendente ver a fintech avançar ainda mais em experiências próprias, parcerias exclusivas e benefícios diferenciados em aeroportos.
O verdadeiro teste será a retenção
O lançamento de um cartão premium pode gerar curiosidade e crescimento rápido.
O desafio é outro: fazer o cliente continuar pagando pelo produto durante anos.
Para isso, a Revolut terá que provar que o valor do Ultra não está apenas na novidade.
Se o cliente utilizar frequentemente os RevPoints, as salas VIP, o câmbio, os seguros, as assinaturas e os demais benefícios, a mensalidade poderá fazer sentido.
Mas se ele utilizar apenas um ou dois benefícios, a conta pode deixar de fechar.
É justamente nesse ponto que a estratégia de longo prazo será testada.
Revolut pode obrigar os bancos tradicionais a reagir
A entrada agressiva da fintech pode provocar uma reação em cadeia.
Bancos tradicionais podem ser pressionados a:
- melhorar a pontuação de cartões;
- reduzir exigências para cartões premium;
- ampliar parceiros de transferência;
- oferecer mais salas VIP;
- criar benefícios exclusivos;
- melhorar aplicativos;
- lançar planos por assinatura;
- aumentar a integração entre banco, cartão e programa de fidelidade.
Ou seja, mesmo quem não pretende utilizar a Revolut pode acabar sendo beneficiado pela competição.
O que pode acontecer daqui para frente?
É impossível afirmar quais serão os próximos produtos da Revolut, mas a direção estratégica já começa a ficar clara.
A fintech está construindo um ecossistema que combina conta global, câmbio, crédito, investimentos, pontos, milhas, salas VIP e benefícios premium.
E a descoberta mais importante de 2026 pode ter sido justamente perceber que o consumidor brasileiro não estava procurando apenas câmbio barato.
Ele estava procurando um ecossistema melhor para viajar.
Se a Revolut conseguir transformar os RevPoints em uma das principais moedas de fidelidade do mercado brasileiro, o Ultra poderá ser lembrado não apenas como mais um cartão premium lançado no país, mas como um dos produtos que ajudaram a mudar a forma como os brasileiros escolhem seus cartões.
O próximo capítulo da disputa
Hoje, a Revolut já oferece até 3 RevPoints por dólar no crédito Ultra. Mas o verdadeiro potencial está no que poderá acontecer quando a empresa aumentar a quantidade de parceiros, desenvolver novas experiências e ampliar sua base de clientes.
A grande disputa pode estar apenas começando.
E, para quem acompanha cartões, milhas e viagens, talvez seja justamente esse o ponto mais importante: não olhar apenas para o que o Revolut Ultra oferece hoje, mas para o que a fintech poderá oferecer daqui a dois, três ou cinco anos.
O Viagem Black continuará acompanhando essa evolução porque, no mercado de cartões premium, quem olha apenas para a fotografia de hoje pode perder a transformação que está acontecendo diante dos olhos.
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